quinta-feira, 21 de abril de 2011

Crônica - O medo de Clarice

Aparentemente, nada assustava a menina curiosa, que observava os cabelos brancos da personagem da novela. “Pai, por que os cabelos ficam brancos?”, perguntou. “Porque as pessoas envelhecem”, respondeu ele. “E depois?”, continuou a menina. “Depois elas morrem, mas isso leva algum tempo”, revelou o pai.
Aquela conversa fez Clarice passar a temer a morte, porque tiraria dela aqueles a quem amava. Naquela noite, ao notar os cabelos brancos da avó, a menina não conteve o choro. Para acalmá-la, a mãe esclareceu que o fenômeno era natural e não havia razão para temer. No dia seguinte, graças à magia da tintura, os fios brancos deixaram de existir na cabeça de Maria, mas não o medo de Clarice.
Ela pulava o trecho da oração em que a morte era mencionada, e não gostava de túmulos, cemitérios e crisântemos. O tempo passava e Clarice descobria que não era a alvura dos cabelos que definia a hora de cada um. Que o preto de sua cultura não significa luto em outras. Que existem múltiplas maneiras de enxergar a morte. Às vezes, ela chega de forma drástica. Em outras, vem calmamente ao anoitecer. Alguns a buscam, enquanto outros agonizavam à espera. Há o lado cruel da perda, e o divino, da eternidade. Clarice deixou de pular trechos das orações, mas continuou sem aceitar a ideia. Também não sabia o que dizer para consolar as perdas de outras pessoas. Preferia calar palavras em um abraço, que nem sempre tinha coragem de dar.
Aprendeu que existem profissionais preparados para salvar vidas, mas só naquele dia encontrou os que sabiam lidar com a morte. Ao lado, a vizinha lia avidamente um livro grosso. “Sobre o que fala?”, perguntou Clarice. “Sobre cuidados paliativos. Esse é o tratamento que minha tia recebe no hospital”, disse Ana. Clarice nunca ouvira falar daquilo. Sabia que a vizinha cuidava da tia doente. Diziam na rua que não havia cura, o que fazia a garota estranhar a naturalidade da amiga ao comentar o assunto. “Mais tarde vou à enfermaria visitar minha tia. Quer ir?”, convidou Ana, tirando Clarice do devaneio. Receosa, ela aceitou.
No caminho, Ana falava sobre coisas que pareciam irreais. Sobre médicos que reconheciam a própria impotência diante da doença e que, ao invés de estender a vida, preparavam os doentes para lidar com a morte. “Ajudá-la nesse momento é o que tem me confortado”, disse a vizinha. Tudo era muito novo para quem temia a ideia do fim. Clarice ainda refletia quando chegaram à ala de internação. Luiza despertou com a chegada da sobrinha. Em sua expressão, um misto de cansaço e serenidade.
De repente, a doutora Sophia entra no quarto. Cumprimenta as garotas, mas dedica toda a atenção a Luiza. Com delicadeza, toma-lhe a mão, no que a paciente pergunta “tem certeza que não há cura?” A médica, sem desviar o olhar da paciente, responde: “Não, mas vamos trabalhar para que você não sinta dor. Vamos cuidar de você, fique tranquila”.
Clarice assistia comovida. Ao sair do quarto, perguntou à médica como ela conseguia lidar com a morte com tanta naturalidade. Sophia, com o mesmo olhar carinhoso, sabiamente disse que aprender a encarar a morte ajudava a viver melhor. A garota ouviu em silêncio e retornou ao quarto, onde Ana já se despedia da tia A mulher receberia alta no dia seguinte, para continuar o tratamento em casa. Luiza, então, falou: “Também já tive medo. Sabe, queria viver mais, mas a doença não vai deixar. Não me assusto, porque o que tive valeu a pena”.
O olhar de Luiza e os cuidados da médica marcaram Clarice, que compreendeu a naturalidade do envelhecer e do morrer. Numa rua próxima ao hospital, a garota comprou um quadro colorido. Era a lembrança que levaria, não da morte anunciada de Luiza, mas sim da vida que a fez chegar até ali e do dia em que o medo da morte foi enfim superado.

Cuidados Paliativos

Os princípios da medicina que prioriza o cuidar ao invés da cura e ensina como lidar com o fim da vida


À primeira vista, a enfermaria do décimo segundo andar do Hospital do Servidor Público de São Paulo parece um setor como outro qualquer. Talvez porque a diferença não esteja na estrutura, mas sim nos princípios de uma medicina ainda pouco conhecida, chamada de cuidados paliativos. A finalidade da luta não é prolongar a vida a todo custo, mas garantir que haja dignidade até o último instante.
Desde às nove horas da manhã, a equipe médica da enfermaria segue a rotina de visitar os pacientes. É o momento de ouvir. A última a ser visitada é Mariza. O medo marca o olhar da mulher de cinquenta anos, que chegara no dia anterior. A médica Maria Goretti Sales Maciel, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, aproxima-se da beirada do leito e toma com cuidado as mãos da paciente. Com olhar carinhoso, pergunta o que ela tem sentido e a tranquiliza com o compromisso de cuidar dela.
Esse tipo de atendimento surgiu nos anos sessenta por iniciativa da médica britânica Cicely Saunders. Em 1990, a prática foi recomendada pela Organização Mundial da Saúde e, em maio, foi reconhecida como especialidade médica no Brasil. A Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Sevidor foi criada em 2002 pela Dra. Maria Goretti. Todo ano, cerca de cinquenta médicos residentes passam pela Enfermaria e aprendem os conceitos da prática paliativa. A formação em Medicina da Família ajudou Maria Goretti a ter uma visão mais ampla sobre o doente e a entender os princípios da medicina que prioriza o cuidado ao invés da cura.
“O médico pode encarar ou fugir pela tangente, prometendo ao paciente coisas que não vai poder cumprir. Quando resolve conversar e explicar, acaba ficando melhor. É saudável para o médico esse contato com a terminalidade, com a impotência, com a realidade de que nem sempre a vida pode ser salva. Na verdade, só é preciso aprender a lidar com a vida, porque a morte faz parte dela”, afirma a médica. No Brasil, existe um serviço de cuidados paliativos para cada quatro milhões e meio de pessoas. O país com melhor padrão de atendimento é o Reino Unido, onde há um serviço para cada grupo de quarenta mil pessoas.
A decisão conjunta marca a ação dos paliativistas. “A gente tem que ser treinado para ser capaz de ouvir o doente e decidir junto o que pode ser feito”, afirma Maria Goretti. Após as visitas, os médicos discutem sobre a situação específica de cada um dos pacientes. Ayrton, por exemplo, chegou ao hospital com problemas gastrointestinais. O caso, aparentemente simples, se complicou e, se o doente não fosse submetido a uma sessão de diálise para estabilizar o quadro renal, poderia morrer. Apesar disso, a decisão não era da equipe médica, mas do paciente. Mesmo sem poder influenciar, a residente Ana Beatriz di Tonmaso torcia confiante para que a intervenção ocorresse. “Olho para ele e acho que ainda tem vida para viver. Eu sinto isso. Pelo menos, para conhecer a casa que ele construiu”.
A preocupação demonstrada pela jovem médica reflete a visão paliativa. Aprender a olhar a história de cada um ajuda a amenizar o dia-a-dia na enfermaria. “Até o prontuário, que geralmente é algo técnico, aqui é diferente. Personaliza o doente. Mesmo que depois se encontre um quadro clínico semelhante, você ainda lembrará da pessoa”, conta o residente em geriatria, Fernando Henrique de Paula.
A paciente Marília Conceição Procópio é a caçula de oito irmãos. O câncer no pulmão a trouxe ao hospital e, depois de duas semanas no ambulatório, foi transferida para a Enfermaria. A mineira, que chegou ainda criança a São Paulo, dedicou a vida à Educação. Aposentada há três anos, participou do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) e trabalhou como professora de pré-escola, ensino fundamental e médio. Dedicou vinte de seus sessenta anos ao cargo de diretora de escola. “Quando comecei a pensar meu projeto de vida, sair, passear, adoeci. Daí, acabou. Perdi a sequência. Mas, se Deus me ajudar, quem sabe? Para Ele, nada é impossível”.
A compreensão a respeito da morte vem aos poucos. “São conversas longas e frequentes, nas quais a pessoa começa a entender o que é a doença, porque não existe uma condição de cura, o que estamos fazendo e o porquê de estarmos fazendo. É preciso deixar claro que a ação é minuciosamente estruturada para que a pessoa tenha qualidade de vida neste processo de evolução final”, explica o médico Ricardo Tavares de Carvalho, presidente da Comissão de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor da Academia Nacional de Cuidados Paliativos.
Entendendo a morte, pacientes e doutores sentem o afeto que marca o ato de cuidar e aprendem na prática o significado mais amplo da vida, refletido no olhar sereno e nas palavras de sabedoria de Marília. “Os médicos e os funcionários têm muito carinho com a gente e isso tudo ajuda na recuperação, porque a doença é muito triste. Eles nos dão a mão, reforçam e enriquecem a gente. Daí você começa a entender que tudo é por Deus, que não adianta chorar e ficar triste. A doença existe. Não tem jeito de tirar. É só entregar para Deus e tentar caminhar”.






Por Géssica Brandino