Os princípios da medicina que prioriza o cuidar ao invés da cura e ensina como lidar com o fim da vida

À primeira vista, a enfermaria do décimo segundo andar do Hospital do Servidor Público de São Paulo parece um setor como outro qualquer. Talvez porque a diferença não esteja na estrutura, mas sim nos princípios de uma medicina ainda pouco conhecida, chamada de cuidados paliativos. A finalidade da luta não é prolongar a vida a todo custo, mas garantir que haja dignidade até o último instante.
Desde às nove horas da manhã, a equipe médica da enfermaria segue a rotina de visitar os pacientes. É o momento de ouvir. A última a ser visitada é Mariza. O medo marca o olhar da mulher de cinquenta anos, que chegara no dia anterior. A médica Maria Goretti Sales Maciel, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, aproxima-se da beirada do leito e toma com cuidado as mãos da paciente. Com olhar carinhoso, pergunta o que ela tem sentido e a tranquiliza com o compromisso de cuidar dela.
Esse tipo de atendimento surgiu nos anos sessenta por iniciativa da médica britânica Cicely Saunders. Em 1990, a prática foi recomendada pela Organização Mundial da Saúde e, em maio, foi reconhecida como especialidade médica no Brasil. A Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Sevidor foi criada em 2002 pela Dra. Maria Goretti. Todo ano, cerca de cinquenta médicos residentes passam pela Enfermaria e aprendem os conceitos da prática paliativa. A formação em Medicina da Família ajudou Maria Goretti a ter uma visão mais ampla sobre o doente e a entender os princípios da medicina que prioriza o cuidado ao invés da cura.
“O médico pode encarar ou fugir pela tangente, prometendo ao paciente coisas que não vai poder cumprir. Quando resolve conversar e explicar, acaba ficando melhor. É saudável para o médico esse contato com a terminalidade, com a impotência, com a realidade de que nem sempre a vida pode ser salva. Na verdade, só é preciso aprender a lidar com a vida, porque a morte faz parte dela”, afirma a médica. No Brasil, existe um serviço de cuidados paliativos para cada quatro milhões e meio de pessoas. O país com melhor padrão de atendimento é o Reino Unido, onde há um serviço para cada grupo de quarenta mil pessoas.
A decisão conjunta marca a ação dos paliativistas. “A gente tem que ser treinado para ser capaz de ouvir o doente e decidir junto o que pode ser feito”, afirma Maria Goretti. Após as visitas, os médicos discutem sobre a situação específica de cada um dos pacientes. Ayrton, por exemplo, chegou ao hospital com problemas gastrointestinais. O caso, aparentemente simples, se complicou e, se o doente não fosse submetido a uma sessão de diálise para estabilizar o quadro renal, poderia morrer. Apesar disso, a decisão não era da equipe médica, mas do paciente. Mesmo sem poder influenciar, a residente Ana Beatriz di Tonmaso torcia confiante para que a intervenção ocorresse. “Olho para ele e acho que ainda tem vida para viver. Eu sinto isso. Pelo menos, para conhecer a casa que ele construiu”.
A preocupação demonstrada pela jovem médica reflete a visão paliativa. Aprender a olhar a história de cada um ajuda a amenizar o dia-a-dia na enfermaria. “Até o prontuário, que geralmente é algo técnico, aqui é diferente. Personaliza o doente. Mesmo que depois se encontre um quadro clínico semelhante, você ainda lembrará da pessoa”, conta o residente em geriatria, Fernando Henrique de Paula.
A paciente Marília Conceição Procópio é a caçula de oito irmãos. O câncer no pulmão a trouxe ao hospital e, depois de duas semanas no ambulatório, foi transferida para a Enfermaria. A mineira, que chegou ainda criança a São Paulo, dedicou a vida à Educação. Aposentada há três anos, participou do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) e trabalhou como professora de pré-escola, ensino fundamental e médio. Dedicou vinte de seus sessenta anos ao cargo de diretora de escola. “Quando comecei a pensar meu projeto de vida, sair, passear, adoeci. Daí, acabou. Perdi a sequência. Mas, se Deus me ajudar, quem sabe? Para Ele, nada é impossível”.
A compreensão a respeito da morte vem aos poucos. “São conversas longas e frequentes, nas quais a pessoa começa a entender o que é a doença, porque não existe uma condição de cura, o que estamos fazendo e o porquê de estarmos fazendo. É preciso deixar claro que a ação é minuciosamente estruturada para que a pessoa tenha qualidade de vida neste processo de evolução final”, explica o médico Ricardo Tavares de Carvalho, presidente da Comissão de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor da Academia Nacional de Cuidados Paliativos.
Entendendo a morte, pacientes e doutores sentem o afeto que marca o ato de cuidar e aprendem na prática o significado mais amplo da vida, refletido no olhar sereno e nas palavras de sabedoria de Marília. “Os médicos e os funcionários têm muito carinho com a gente e isso tudo ajuda na recuperação, porque a doença é muito triste. Eles nos dão a mão, reforçam e enriquecem a gente. Daí você começa a entender que tudo é por Deus, que não adianta chorar e ficar triste. A doença existe. Não tem jeito de tirar. É só entregar para Deus e tentar caminhar”.
À primeira vista, a enfermaria do décimo segundo andar do Hospital do Servidor Público de São Paulo parece um setor como outro qualquer. Talvez porque a diferença não esteja na estrutura, mas sim nos princípios de uma medicina ainda pouco conhecida, chamada de cuidados paliativos. A finalidade da luta não é prolongar a vida a todo custo, mas garantir que haja dignidade até o último instante.
Desde às nove horas da manhã, a equipe médica da enfermaria segue a rotina de visitar os pacientes. É o momento de ouvir. A última a ser visitada é Mariza. O medo marca o olhar da mulher de cinquenta anos, que chegara no dia anterior. A médica Maria Goretti Sales Maciel, presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, aproxima-se da beirada do leito e toma com cuidado as mãos da paciente. Com olhar carinhoso, pergunta o que ela tem sentido e a tranquiliza com o compromisso de cuidar dela.
Esse tipo de atendimento surgiu nos anos sessenta por iniciativa da médica britânica Cicely Saunders. Em 1990, a prática foi recomendada pela Organização Mundial da Saúde e, em maio, foi reconhecida como especialidade médica no Brasil. A Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Sevidor foi criada em 2002 pela Dra. Maria Goretti. Todo ano, cerca de cinquenta médicos residentes passam pela Enfermaria e aprendem os conceitos da prática paliativa. A formação em Medicina da Família ajudou Maria Goretti a ter uma visão mais ampla sobre o doente e a entender os princípios da medicina que prioriza o cuidado ao invés da cura.
“O médico pode encarar ou fugir pela tangente, prometendo ao paciente coisas que não vai poder cumprir. Quando resolve conversar e explicar, acaba ficando melhor. É saudável para o médico esse contato com a terminalidade, com a impotência, com a realidade de que nem sempre a vida pode ser salva. Na verdade, só é preciso aprender a lidar com a vida, porque a morte faz parte dela”, afirma a médica. No Brasil, existe um serviço de cuidados paliativos para cada quatro milhões e meio de pessoas. O país com melhor padrão de atendimento é o Reino Unido, onde há um serviço para cada grupo de quarenta mil pessoas.
A decisão conjunta marca a ação dos paliativistas. “A gente tem que ser treinado para ser capaz de ouvir o doente e decidir junto o que pode ser feito”, afirma Maria Goretti. Após as visitas, os médicos discutem sobre a situação específica de cada um dos pacientes. Ayrton, por exemplo, chegou ao hospital com problemas gastrointestinais. O caso, aparentemente simples, se complicou e, se o doente não fosse submetido a uma sessão de diálise para estabilizar o quadro renal, poderia morrer. Apesar disso, a decisão não era da equipe médica, mas do paciente. Mesmo sem poder influenciar, a residente Ana Beatriz di Tonmaso torcia confiante para que a intervenção ocorresse. “Olho para ele e acho que ainda tem vida para viver. Eu sinto isso. Pelo menos, para conhecer a casa que ele construiu”.
A preocupação demonstrada pela jovem médica reflete a visão paliativa. Aprender a olhar a história de cada um ajuda a amenizar o dia-a-dia na enfermaria. “Até o prontuário, que geralmente é algo técnico, aqui é diferente. Personaliza o doente. Mesmo que depois se encontre um quadro clínico semelhante, você ainda lembrará da pessoa”, conta o residente em geriatria, Fernando Henrique de Paula.
A paciente Marília Conceição Procópio é a caçula de oito irmãos. O câncer no pulmão a trouxe ao hospital e, depois de duas semanas no ambulatório, foi transferida para a Enfermaria. A mineira, que chegou ainda criança a São Paulo, dedicou a vida à Educação. Aposentada há três anos, participou do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral) e trabalhou como professora de pré-escola, ensino fundamental e médio. Dedicou vinte de seus sessenta anos ao cargo de diretora de escola. “Quando comecei a pensar meu projeto de vida, sair, passear, adoeci. Daí, acabou. Perdi a sequência. Mas, se Deus me ajudar, quem sabe? Para Ele, nada é impossível”.
A compreensão a respeito da morte vem aos poucos. “São conversas longas e frequentes, nas quais a pessoa começa a entender o que é a doença, porque não existe uma condição de cura, o que estamos fazendo e o porquê de estarmos fazendo. É preciso deixar claro que a ação é minuciosamente estruturada para que a pessoa tenha qualidade de vida neste processo de evolução final”, explica o médico Ricardo Tavares de Carvalho, presidente da Comissão de Cuidados Paliativos do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor da Academia Nacional de Cuidados Paliativos.
Entendendo a morte, pacientes e doutores sentem o afeto que marca o ato de cuidar e aprendem na prática o significado mais amplo da vida, refletido no olhar sereno e nas palavras de sabedoria de Marília. “Os médicos e os funcionários têm muito carinho com a gente e isso tudo ajuda na recuperação, porque a doença é muito triste. Eles nos dão a mão, reforçam e enriquecem a gente. Daí você começa a entender que tudo é por Deus, que não adianta chorar e ficar triste. A doença existe. Não tem jeito de tirar. É só entregar para Deus e tentar caminhar”.
Por Géssica Brandino
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