Aparentemente, nada assustava a menina curiosa, que observava os cabelos brancos da personagem da novela. “Pai, por que os cabelos ficam brancos?”, perguntou. “Porque as pessoas envelhecem”, respondeu ele. “E depois?”, continuou a menina. “Depois elas morrem, mas isso leva algum tempo”, revelou o pai.
Aquela conversa fez Clarice passar a temer a morte, porque tiraria dela aqueles a quem amava. Naquela noite, ao notar os cabelos brancos da avó, a menina não conteve o choro. Para acalmá-la, a mãe esclareceu que o fenômeno era natural e não havia razão para temer. No dia seguinte, graças à magia da tintura, os fios brancos deixaram de existir na cabeça de Maria, mas não o medo de Clarice.
Ela pulava o trecho da oração em que a morte era mencionada, e não gostava de túmulos, cemitérios e crisântemos. O tempo passava e Clarice descobria que não era a alvura dos cabelos que definia a hora de cada um. Que o preto de sua cultura não significa luto em outras. Que existem múltiplas maneiras de enxergar a morte. Às vezes, ela chega de forma drástica. Em outras, vem calmamente ao anoitecer. Alguns a buscam, enquanto outros agonizavam à espera. Há o lado cruel da perda, e o divino, da eternidade. Clarice deixou de pular trechos das orações, mas continuou sem aceitar a ideia. Também não sabia o que dizer para consolar as perdas de outras pessoas. Preferia calar palavras em um abraço, que nem sempre tinha coragem de dar.
Aprendeu que existem profissionais preparados para salvar vidas, mas só naquele dia encontrou os que sabiam lidar com a morte. Ao lado, a vizinha lia avidamente um livro grosso. “Sobre o que fala?”, perguntou Clarice. “Sobre cuidados paliativos. Esse é o tratamento que minha tia recebe no hospital”, disse Ana. Clarice nunca ouvira falar daquilo. Sabia que a vizinha cuidava da tia doente. Diziam na rua que não havia cura, o que fazia a garota estranhar a naturalidade da amiga ao comentar o assunto. “Mais tarde vou à enfermaria visitar minha tia. Quer ir?”, convidou Ana, tirando Clarice do devaneio. Receosa, ela aceitou.
No caminho, Ana falava sobre coisas que pareciam irreais. Sobre médicos que reconheciam a própria impotência diante da doença e que, ao invés de estender a vida, preparavam os doentes para lidar com a morte. “Ajudá-la nesse momento é o que tem me confortado”, disse a vizinha. Tudo era muito novo para quem temia a ideia do fim. Clarice ainda refletia quando chegaram à ala de internação. Luiza despertou com a chegada da sobrinha. Em sua expressão, um misto de cansaço e serenidade.
De repente, a doutora Sophia entra no quarto. Cumprimenta as garotas, mas dedica toda a atenção a Luiza. Com delicadeza, toma-lhe a mão, no que a paciente pergunta “tem certeza que não há cura?” A médica, sem desviar o olhar da paciente, responde: “Não, mas vamos trabalhar para que você não sinta dor. Vamos cuidar de você, fique tranquila”.
Clarice assistia comovida. Ao sair do quarto, perguntou à médica como ela conseguia lidar com a morte com tanta naturalidade. Sophia, com o mesmo olhar carinhoso, sabiamente disse que aprender a encarar a morte ajudava a viver melhor. A garota ouviu em silêncio e retornou ao quarto, onde Ana já se despedia da tia A mulher receberia alta no dia seguinte, para continuar o tratamento em casa. Luiza, então, falou: “Também já tive medo. Sabe, queria viver mais, mas a doença não vai deixar. Não me assusto, porque o que tive valeu a pena”.
O olhar de Luiza e os cuidados da médica marcaram Clarice, que compreendeu a naturalidade do envelhecer e do morrer. Numa rua próxima ao hospital, a garota comprou um quadro colorido. Era a lembrança que levaria, não da morte anunciada de Luiza, mas sim da vida que a fez chegar até ali e do dia em que o medo da morte foi enfim superado.
Aquela conversa fez Clarice passar a temer a morte, porque tiraria dela aqueles a quem amava. Naquela noite, ao notar os cabelos brancos da avó, a menina não conteve o choro. Para acalmá-la, a mãe esclareceu que o fenômeno era natural e não havia razão para temer. No dia seguinte, graças à magia da tintura, os fios brancos deixaram de existir na cabeça de Maria, mas não o medo de Clarice.
Ela pulava o trecho da oração em que a morte era mencionada, e não gostava de túmulos, cemitérios e crisântemos. O tempo passava e Clarice descobria que não era a alvura dos cabelos que definia a hora de cada um. Que o preto de sua cultura não significa luto em outras. Que existem múltiplas maneiras de enxergar a morte. Às vezes, ela chega de forma drástica. Em outras, vem calmamente ao anoitecer. Alguns a buscam, enquanto outros agonizavam à espera. Há o lado cruel da perda, e o divino, da eternidade. Clarice deixou de pular trechos das orações, mas continuou sem aceitar a ideia. Também não sabia o que dizer para consolar as perdas de outras pessoas. Preferia calar palavras em um abraço, que nem sempre tinha coragem de dar.
Aprendeu que existem profissionais preparados para salvar vidas, mas só naquele dia encontrou os que sabiam lidar com a morte. Ao lado, a vizinha lia avidamente um livro grosso. “Sobre o que fala?”, perguntou Clarice. “Sobre cuidados paliativos. Esse é o tratamento que minha tia recebe no hospital”, disse Ana. Clarice nunca ouvira falar daquilo. Sabia que a vizinha cuidava da tia doente. Diziam na rua que não havia cura, o que fazia a garota estranhar a naturalidade da amiga ao comentar o assunto. “Mais tarde vou à enfermaria visitar minha tia. Quer ir?”, convidou Ana, tirando Clarice do devaneio. Receosa, ela aceitou.
No caminho, Ana falava sobre coisas que pareciam irreais. Sobre médicos que reconheciam a própria impotência diante da doença e que, ao invés de estender a vida, preparavam os doentes para lidar com a morte. “Ajudá-la nesse momento é o que tem me confortado”, disse a vizinha. Tudo era muito novo para quem temia a ideia do fim. Clarice ainda refletia quando chegaram à ala de internação. Luiza despertou com a chegada da sobrinha. Em sua expressão, um misto de cansaço e serenidade.
De repente, a doutora Sophia entra no quarto. Cumprimenta as garotas, mas dedica toda a atenção a Luiza. Com delicadeza, toma-lhe a mão, no que a paciente pergunta “tem certeza que não há cura?” A médica, sem desviar o olhar da paciente, responde: “Não, mas vamos trabalhar para que você não sinta dor. Vamos cuidar de você, fique tranquila”.
Clarice assistia comovida. Ao sair do quarto, perguntou à médica como ela conseguia lidar com a morte com tanta naturalidade. Sophia, com o mesmo olhar carinhoso, sabiamente disse que aprender a encarar a morte ajudava a viver melhor. A garota ouviu em silêncio e retornou ao quarto, onde Ana já se despedia da tia A mulher receberia alta no dia seguinte, para continuar o tratamento em casa. Luiza, então, falou: “Também já tive medo. Sabe, queria viver mais, mas a doença não vai deixar. Não me assusto, porque o que tive valeu a pena”.
O olhar de Luiza e os cuidados da médica marcaram Clarice, que compreendeu a naturalidade do envelhecer e do morrer. Numa rua próxima ao hospital, a garota comprou um quadro colorido. Era a lembrança que levaria, não da morte anunciada de Luiza, mas sim da vida que a fez chegar até ali e do dia em que o medo da morte foi enfim superado.